Numa passagem de “Bussunda/A vida do Casseta” – biografia do saudoso humorista, popstar e amigo da galera escrita por Guilherme Fiuza e lançada pela Objetiva – o autor declara que Cláudio Besserman Vianna “queria ser Bussunda na vida”. Ou, numa versão radical – tautológica, como diriam os semiólogos e pseudos que ele sacaneou na faculdade – “Bussunda nasceu para ser Bussunda”.
Pois já era Bussunda, desde o útero da iíidiche-mama-psicanalista-engajada. Muito mais que um apelido criado na colônia de férias judaico-progressista Kinderland – em Paty do Alferes – através de uma série de contrações gramaticais (Besserman-Sujismundo-Besserimundo-Bunda), “Bussunda” seria vocação, profissão, identidade, estado de alma – só possíveis naquele corpo em movimento.
Veja fotos da vida de Bussunda
Quem o conheceu sabe: a figura que, para o público, emergiu de repente na TV como ídolo exótico transformista e caiu na boca do povo (depois da morte trágica, seu nome foi gritado no Maracanã pela torcida do Flamengo) era nada menos que o mesmo, o mesmíssimo Bussunda que frequentou várias arenas da cidade, panfletando, bebendo, pegando jacaré, fumando maconha. Ou discursando de terno para épater les engagés no tempo em que largou o comunismo e abraçou a anarquia muito especial que tomou conta da Escola de Comunicação da UFRJ (a ECO) nos anos 1980, representada pela legenda “Overdose” – que tomaria posse do Centro Acadêmico e participaria do comício das Diretas.
O Bussunda famoso era o mesmo Bussunda entocado em seu quarto num mar de revistas de sacanagem. O mesmo Bussunda sacaneado e mimado pelos irmãos, motivo de preocupação para os pais. E que “deu certo” ao avesso, como convém àqueles que vêm com uma missão maior que o senso comum. Deus, se existir, escreve certo por linhas tortas e deu à luz Bussunda, eu filho, olhos de santo e de capeta.
O problema é definir, nas dimensões deste gigante antibíblico, o que é “ser Bussunda”, para além dos personagens eternizados na televisão nos longos anos em que integrou a turma do Casseta & Planeta, grupo que sintetizou na mídia impressa e eletrônica os cruzamentos de “Cláudio” com várias galeras. Problema que Fiuza, a toque de caixa, equacionou competente e parcialmente, como era mesmo sua proposta, deixando o sabor necessário da obra em progresso, apesar dos temores de que Bussunda não coubesse num livro, relatados no prefácio do volume de pouco mais de 400 páginas entremeado de fotos.
Não cabe mesmo. E o livro surfa e às vezes desliza e leva caixotes (daqueles que Bussunda adorava levar em dia de ressaca) nas transposições de tempo e intercalações de flashbacks, a ponto de às vezes ser difícil saber se estamos na adolescência raquítica do “vietcongue” de Copacabana ou no pilotis da PUC. A surpresa é que isso não prejudica o texto. Quem se importa se as excelentes histórias correm soltas, e o que corre nas histórias é a essência mais pura de Bussunda? Essência nem sempre floral, mas sempre com um buquê de coração gordo, de pai, de irmão, de filho, de amigo, de marido. Golem às gargalhadas. Gigante do amor ácido e do humor doce.
Faltam histórias, é verdade, muitas, e isso não é um delito: o livro justamente enseja que se contem outras, inclusive aquelas relacionadas a uma musa imaterial de Bussunda: a maconha (ou lymbra, ou xuncro, no dialeto), assunto no qual o livro economiza bastante. Afinal, Bussunda foi um dos primeiros a respirar o último suspiro da era pós-hippie no litoral carioca: levou para casa uma das amostras do Verão da Lata (1988), quando centenas de latas clandestinas de marijuana descartadas por um navio boiaram suavemente até a costa. O verão não está no livro. Nem a banana com aspirina, usada para substituir a erva num período inverso, de seca severa, compartilhada no “mosteiro” da Rua Anita Garibaldi. Se a chamada “Bolha” é citada, o famoso pano de barraca trazido de um acampamento estudantil em Florianópolis onde dezenas de pessoas se apertavam para fumar não tem descrito seu gran finale: um dia, A Bolha saiu rolando pelos corredores azulejados da faculdade até explodir, expelindo a fumaça concentrada, como um cogumelo atômico, fato testemunhado pela diretoria refém daquele império da (in)sensatez. Império formador de grande porção da cognição bussúndica com o mundo.
Se, numa das concessões feitas por Fiuza às drogas, a história da levitação em Amsterdã por causa de um ácido forte comparece à narrativa, seria gostoso complementar a coisa recordando o hábito cultivado por Bussunda, de distribuir LSD para companheiros de equipe em peladas. Interessavam-lhe, por assim dizer, as configurações espaço-temporais que o futebol assumia naquelas novas coordenadas sinápticas.
Nada que faça com que os relatos que Fiuza coletou em suas 80 horas de entrevistas e nas pesquisas correlatas de texto e imagem deixem de arrancar gargalhadas e lágrimas dos leitores que mergulharem com o espírito livre na teia vital de Bussunda, compreendendo, no sentido da razão, da emoção e da abrangência, a imensa figura do palhaço mais tímido e mais sem- vergonha que o Brasil já conheceu, e perdeu. Sua morte precoce é narrada com precisão jornalística e corte cirúrgico, quase minimalista, fazendo seu espírito, ao fim do livro, pairar sobre nós que aqui ficamos. Bussunda, enfim, vive.
Casseta e Planeta
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Casseta e Planeta
Casseta & Planeta é um grupo humorístico brasileiro, criado com a fusão das turmas de duas publicações do Rio de Janeiro: a revista Casseta Popular e o tabloide O Planeta Diário que fazem humor acerca de temas do cotidiano.
Em meados dos anos 80 os trabalhos dos dois grupos convergiram (em jornais, revistas, discos, shows, livros e filmes) em uma mescla do nonsense do Monty Python com a sátira ao cotidiano do Saturday Night Live. Sua incorreção política é clássica: os Cassetas não poupam em suas gagues, diversos grupos étnicos, religiosos,minorias (sobram piadas de portugueses, judeus, políticos, homossexuais, bêbados, gaúchos, baianos, argentinos, entre outros) e sobre acontecimentos atuais.
O grupo fundou a empresa Toviassú Produções Artísticas (o nome Toviassú é um siglema composto pelas sílabas iniciais da frase Todo viado é surdo). Cada um dos seis membros tem uma função específica nessa firma.
O principal veículo do grupo é Casseta & Planeta, urgente!, seu duradouro programa das noites de terça-feira na Rede Globo. O grupo também tem um website, lançou best-sellers e licenciou vários produtos --- por exemplo, o Machobol, uma paródia do frescobol.
No princípio era a Casseta Popular e o Planeta Diário, formados pela turma do fundão das salas do Fundão, isto é, comunistas panfleteiros ecoando as palavras anacrônicas do líder do marxismo.
Aproveitando as brechas criadas pelo golpe antidemocrático que derrubou o regime democrático militar que havia no Brasil, a Casseta e o Planeta resolveram realizar uma parceria público-privada, tornando público o que havia na privada.
A formação original era: FHC, Luís Inácio Lesma da Silva, Seu Creysson, Itamar Franco, Édson Arantes do Nascimento, Felipão e Pedro Bial. Mas como casamento de FHC com Yoko Ono, o grupo passou a enfrentar brigas internas e se desfez.
Os empresários Cláudio Paiva e Miguel Arraes (então governador biônico de Pernambuco), realizaram um reality show para contratar novos integrantes. A segunda formação contou então com: Hubert de Carvalho Aranha (o Hipert), Cláudio Besserman Viana (o Pequeno Buda), Claudio Manoel Mascarenhas Pimentel dos Santos (o Claude Mañel), Reinaldo Batista Figueiredo (el Perro Blanco), Hélio Antonio do Couto Filho (o Papai-Noel), Roberto Adler (herr Alemon) e Marcelo Garmatter Barretto (o Seu Agamenondo PCC) - que venceram a etapa final contra Golias, Costinha, Chico Anysio, Jô Soares, Paulo Silvino, Mauro Mendonça, Enéas Carneiro e George W Bush.
A fim de completar o grupo, inicialmente contrataram Doris Giesse como mulher-bomba, mas diante da insistência dela em fazer o papel de homem-bomba (ou pelo menos de ser andrógino-bomba), as tentativas iniciais foram um fracasso. Substituíram-na pela pseudojornalista, Kátia Maranhão. Após dois anos de indecisão, houve nova mudança com a entrada de Maria Paula no lugar de Maranhão. Maria Paula já havia demonstrado no frustrado Radical Chic que era sem graça o suficiente para não ofuscar os demais integrantes do grupo.
A substituição mais recente foi a de Bussunda por um espaço vazio. A decisão foi motivada por corte de custos, já que Besserman costumava devorar metade do orçamento do grupo em guloseimas.
Em meados dos anos 80 os trabalhos dos dois grupos convergiram (em jornais, revistas, discos, shows, livros e filmes) em uma mescla do nonsense do Monty Python com a sátira ao cotidiano do Saturday Night Live. Sua incorreção política é clássica: os Cassetas não poupam em suas gagues, diversos grupos étnicos, religiosos,minorias (sobram piadas de portugueses, judeus, políticos, homossexuais, bêbados, gaúchos, baianos, argentinos, entre outros) e sobre acontecimentos atuais.
O grupo fundou a empresa Toviassú Produções Artísticas (o nome Toviassú é um siglema composto pelas sílabas iniciais da frase Todo viado é surdo). Cada um dos seis membros tem uma função específica nessa firma.
O principal veículo do grupo é Casseta & Planeta, urgente!, seu duradouro programa das noites de terça-feira na Rede Globo. O grupo também tem um website, lançou best-sellers e licenciou vários produtos --- por exemplo, o Machobol, uma paródia do frescobol.
No princípio era a Casseta Popular e o Planeta Diário, formados pela turma do fundão das salas do Fundão, isto é, comunistas panfleteiros ecoando as palavras anacrônicas do líder do marxismo.
Aproveitando as brechas criadas pelo golpe antidemocrático que derrubou o regime democrático militar que havia no Brasil, a Casseta e o Planeta resolveram realizar uma parceria público-privada, tornando público o que havia na privada.
A formação original era: FHC, Luís Inácio Lesma da Silva, Seu Creysson, Itamar Franco, Édson Arantes do Nascimento, Felipão e Pedro Bial. Mas como casamento de FHC com Yoko Ono, o grupo passou a enfrentar brigas internas e se desfez.
Os empresários Cláudio Paiva e Miguel Arraes (então governador biônico de Pernambuco), realizaram um reality show para contratar novos integrantes. A segunda formação contou então com: Hubert de Carvalho Aranha (o Hipert), Cláudio Besserman Viana (o Pequeno Buda), Claudio Manoel Mascarenhas Pimentel dos Santos (o Claude Mañel), Reinaldo Batista Figueiredo (el Perro Blanco), Hélio Antonio do Couto Filho (o Papai-Noel), Roberto Adler (herr Alemon) e Marcelo Garmatter Barretto (o Seu Agamenon
A fim de completar o grupo, inicialmente contrataram Doris Giesse como mulher-bomba, mas diante da insistência dela em fazer o papel de homem-bomba (ou pelo menos de ser andrógino-bomba), as tentativas iniciais foram um fracasso. Substituíram-na pela pseudojornalista, Kátia Maranhão. Após dois anos de indecisão, houve nova mudança com a entrada de Maria Paula no lugar de Maranhão. Maria Paula já havia demonstrado no frustrado Radical Chic que era sem graça o suficiente para não ofuscar os demais integrantes do grupo.
A substituição mais recente foi a de Bussunda por um espaço vazio. A decisão foi motivada por corte de custos, já que Besserman costumava devorar metade do orçamento do grupo em guloseimas.
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